Matéria sobre a crise espanhola no Valor (1)

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Crise atinge geração espanhola que não conhecia recessão

Arnaldo Comin, para o Valor, de Madri

26/01/2009

Zapatero: "As condições econômicas melhorarão a partir da segunda metade de 2009"; mas desemprego já é recorde/Foto:AP

O movimento na rua Fuencarral, importante corredor comercial no centro de Madri, segue intenso com o início das rebajas, a temporada de liquidação de início de ano. Por trás da aparente normalidade, há algo diferente no ar. As lojas anteciparam o calendário de promoções e anunciam descontos de até 70%, em itens que vão de moda feminina a computadores, valor um tanto exagerado para os padrões do varejo local. Os bares e restaurantes madrilenhos também continuam cheios, o que não é surpresa para um povo famoso pelo espírito gregário e festeiro. O setor, no entanto, já registrou uma queda superior a 20% no movimento, em sintonia com o ânimo dos fregueses. O tema das conversas agora é quase sempre o mesmo: crise, desemprego e o 2009 sombrio que começa.

A Espanha tem sido assolada nos últimos meses por um coquetel de más notícias, em âmbito internacional ou dentro de casa. O golpe final foi dado na semana passada, quando a Standard & Poor´s rebaixou o rating do país de “triple A”, obtido em 2004, para AA+. A agência de classificação de risco justificou que a crise mundial acentuou as “fraquezas estruturais” da economia espanhola, com uma expectativa de difícil recuperação. Trata-se do primeiro rebaixamento desde que o país foi avaliado pela primeira vez, em 1988, reavivando na memória um tempo de vacas magras que os espanhóis pensavam que não voltaria mais.

Para quem nasceu depois da década de 70, recessão é uma palavra nova no vocabulário. Nos últimos 20 anos, foi o país que mais cresceu dentro da zona do euro, em boa medida pelo ingresso sem precedentes dos fundos comunitários. De 1986 para cá, a Espanha recebeu de Bruxelas a maior fatia de recursos da União Européia: 186 bilhões de euros, grande parte dedicada à modernização de estradas e ferrovias. O dinheiro novo capitalizou as empresas de infra-estrutura, que passaram a investir pesado no mercado imobiliário, setor que liderou o crescimento local nas últimas décadas. Em função do acesso fácil a crédito com juros relativamente baratos, é difícil encontrar um espanhol que não pague hipoteca pela residência em que mora ou até por um segundo imóvel, sem contar os ingleses e alemães que inflacionaram o preço das casas de veraneio nas ensolaradas praias do Mediterrâneo.

Ainda que a Espanha não tenha sido excessivamente exposta aos papéis subprime que quebraram a banca americana, a crise mundial acabou acelerando o estouro da bolha imobiliária existente no país, como já há algum tempo se prenunciava. Grandes construções paradas no meio do projeto, com vigas de sustentação expostas à oxidação, tornaram-se parte da paisagem em todo o país.

A paralisação do setor e a escalada dos juros da habitação produziram um baque no restante da economia. O Ibex35, índice das maiores empresas listadas na bolsa de Madri, sofreu queda acumulada de 39,4% no ano passado, o pior desempenho desde a criação do índice, em 1991. Na segunda-feira passada, a Comissão de Assuntos Econômicos da União Européias traçou um panorama bastante pessimista para o país: queda do PIB de 2% em 2009 e 0,2% em 2010, enquanto a atual taxa de desemprego, que já ronda os 14%, a mais alta da zona do euro, poderá chegar até 19%.

Já são 1 milhão de novos desempregados em 2008 e o total de trabalhadores parados, atualmente na casa de 3 milhões, pode superar os 4 milhões até o final deste ano.

A Espanha tem pouco mais de 40 milhões de cidadãos nativos e 5 milhões de imigrantes, muitos destes romenos, sul-americanos e africanos atraídos pela até então farta oferta de mão-de-obra na construção civil.

A falta de trabalho começa a gerar conflitos, uma vez que os espanhóis voltam a disputar postos em atividades antes dispensadas aos estrangeiros, como as colheitas de morangos, uvas e azeitonas. Cenário desolador para um país que, nos anos 90, gerava 1 a cada 3 novos postos de trabalho na UE.

Nas tertúlias, como são chamados os programas de debates que proliferam na TV, bem como nos fóruns e blogs na internet, aumentam as críticas pela maneira como o primeiro-ministro do governo, José Luiz Zapatero, do Partido Socialista (PSOE), vem tentando minimizar o impacto do frenazo na economia.

Depois de se esquivar por meses da palavra crise, o vice-primeiro-ministro do governo e ministro da Economia, Pedro Solbes, admitiu que a situação é grave, mas sustenta que o país está tomando pulso firme nas medidas de recuperação.

Para isso, o governo vem gastando mais do que pode, em medidas de apoio aos trabalhadores desempregados e pacotes de isenção fiscal às empresas. O Estado também negocia planos de emergência para os setores de automobilístico e de construção, cuja queda nas vendas já chega a 40% e 70%, respectivamente. O desafio é evitar a explosão do déficit público que, segundo a Comissão Européia, deve chegar a 6,2%, o dobro da meta de 3% estipulada pela UE e outro fator que levou a S&P a rebaixar a nota do país.

Os socialistas, contudo, estão convencidos que o pacote anticrise surtirá efeito nos próximos meses. “As condições econômicas melhorarão a partir da segunda metade de 2009”, declarou Zapatero em encontro com empresários em Madri. Ironicamente, o Partido Popular (PP), de orientação liberal e principal força de oposição ao PSOE, pressiona os socialistas a aumentar ainda mais a intervenção do Estado na economia. Na Espanha de volta à crise, é hora de tirar da arena as velhas convicções e encarar o touro à unha.

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2 Respostas para “Matéria sobre a crise espanhola no Valor (1)

  1. Belo material Arnaldo, esse da chacoalhada na espanholada; esse povo continua mandando de volta os brasiguaios que tentam entrar aí no centro do universo. Afe!

  2. Pingback: Matéria sobre Cine Espanhol na Revista da Cultura « Madrilenhas

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