Arquivo da categoria: Madrid

Matéria sobre Cine Espanhol na Revista da Cultura

Raul San Miguel, um dos grandes amigos que fiz em Madri, estudou cinema na Alemanha e agora tenta a sorte na difícil panelinha do audiovisual espanhol

Raúl Fernández San Miguel, um dos grandes amigos que fiz em Madri, estudou cinema na Alemanha e agora tenta a sorte na difícil panelinha do audiovisual espanhol

A maquininha de frilas não pára. É economia, educação, gripe suína, chegada do Kaká, Marrakech e agora cinema. Depois da cobertura do novo filme do Almodóvar, saiu agora uma matéria sobre os novos cinestas espanhóis na Revista da Cultura. Uma pena que tive muito pouco espaço. Nem conseguiram aproveitar as fotos ma-ra-vi-lho-sas de Almodóvar e Penélope Cruz ou do meu grande amigo Raúl Fernández San Miguel, jovem cineasta madrilenho (por acaso nos conhecemos no Marrocos), que depois te der feito um belo documentário financiado na Alemanha, tenta viabilizar seus primeiros trabalhos na Espanha.  Pra quem curte, uma passada rápida no que anda rolando na sétima arte por aqui.

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Kakamania

Kaká é recebido no Santiago Bernabéu por milhares de torcedores

Kaká é recebido no Santiago Bernabéu por milhares de torcedores

Ontem foi mais um dia de repórter para assuntos aleatórios em terras estrangeiras. Sobrou fazer a cobertura da chegada do Kaká ao Real Madrid. Como estão realmente secos de títulos e humilhados pelo Barcelona, os torcedores, ou aficionados como se diz aqui,  receberam nosso mauricinho ex-tricolor com enorme euforia. Sentindo aquela oportunidade para carregar nos títulos, cunhei para o Terra a nota Madri se rende à Kakamania.

Foi uma correria, acabei publicando mais três matérias ontem, sobre os brasileiros que foram receber o jogador, a repercussão na imprensa espanhola e ainda entrevistas com torcedores dos rivais Barça e Atlético de Madrid. O camarada Rafael Coelho, publicitário residente aqui em Madri, me ajudou ainda com imagens em vídeo, mas foi humanamente impossível editar tudo para ir ao ar ontem. Não sei exatamente a importância desse acontecimento, mas o Terra no final fez uma cobertura super completa da chegada do Kaká, difícil acompanhar o ritmo dos caras.

O fato é que o pomposo estádio do Real Madrid, o Santiago Bernabéu, estava em clima total de festa. A imprensa chegou a dizer que 60 mil pessoas foram ver o novo contratado. Exagero, é claro. Mas que tinha mais de um Parque Antarctica cheio, lá isso tinha…..

A rapaziada do Real Madrid se espremeu para ver o novo craque do time

A rapaziada do Real Madrid se espremeu para ver o novo craque do time

Os chavales fazem a maior festa com a "prensa brasileña"

Os chavales fazem a maior festa com a "prensa brasileña"

Não faltou também a recepção da colônia brazuca

Não faltou também a recepção da colônia brazuca...

..assim como camelôs vendendo flâmulas da seleção "canariña"....

...assim como camelôs vendendo flâmulas da seleção "canariña"....

...e evangélicos, é claro

...e evangélicos, é claro

Leaving Legazpi

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Fim de mais uma etapa nessa epopéia espanhola. Depois de seis meses, deixamos o bairro de Legazpi. Devolvemos o apartamento que alugamos desde janeiro para voltar à casa do amigo Adriano Henriques, onde ficaremos até a nossa volta ao Brasil. Antes porém, passaremos todo o mês de julho em Londres. Assim como em Cuatro Caminos, onde voltaremos a morar, este blog não poderia deixar de fazer uma homenagem fotográfica  a Legazpi, que tão bem nos acolheu esse ano todo até agora.

Rua de lazer atrás do nosso prédio

Rua de lazer atrás do nosso prédio

Localizado no sul da cidade, Legazpi tem origem obrera e é considerado um pouco longe para os padrões madrilenhos. Uma espécie de Santo Amaro, diríamos. Mas na prática fica só a cinco estações da Sol, a Praça da Sé daqui. De ônibus, também se chega em cinco minutos à estação de trem de Atocha.O bairro perdeu sua cara proletária e hoje é tomado por condomínios de classe média, que dão um ar sossegado à região toda.

Vista da sacada logo que mudamos, em janeiro, debaixo da maior nevasca do ano

Vista da sacada do apartamento logo que mudamos, em janeiro, debaixo da maior nevasca do ano em toda a Espanha

Ao contrário dos bairros mais centrais, Legazpi sofre um pouco com a falta de comércio disponível, mas nada que não se resolva em no máximo 10 minutos de caminhada. E tem ainda algumas mordomias, como uma máquina de locação de vídeo bem embaixo do prédio, que dá pra pegar filminhos a qualquer hora do dia sempre a preços modestos:

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O destaque arquitetônico do bairro é o Matadero (ver post com várias fotos), o centro cultural do lado de casa:

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Outro lugar fantástico é o Parque de Arganzuela, uma área enorme de lazer que é relativamente nova, dentro da política da cidade de aumentar a oferta de áreas verdes:

Parque de Arganzuela no inverno

Parque de Arganzuela no inverno

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Na parte mais “urbana” do bairro temos o famoso Paseo de Delicias, avenidão que dá acesso ao centro da cidade. Ao longo do caminho há sempre algumas glorietas, como eles chamam as rotatórias que fazem as vezes de praças, algumas com belas fontes de água. Igualzinho ao corredor da Av. Santo Amaro:

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Passeando perto do parque dá para conhecer o Museu Ferroviário que, além das composições bonitinhas e restauradas, há ainda algumas bem podronas à espera de restauração:

Locomotivas abandonas ao lado do Museu Ferroviário

Locomotiva abandonada ao lado do Museu Ferroviário

Legazpi me intrigou desde o princípio, tem um nome misterioso que Iris sempre confundia no começo com Leipzig 🙂

Não tem espírito boêmio, mas reflete bastante como é a Madri dos bairros, da vida mais tranquila dos condomínios residenciais. Foi uma temporada muito boa por aqui. Vai deixar saudade…

Matadero

Centro Cultural de Matadero

Centro Cultural de Matadero, em Legazpi

Em meio a toda especulação imobiliária, Madri dá bons exemplos de como se pode investir na reurbanização de áreas degradadas pensando no coletivo e a longo prazo. O melhor exemplo disso é o Matadero, um centro cultural sensacional muito próximo de casa, em Legazpi.

O espaço, como o nome indica, era o antigo matadouro municipal, que agora está em processo de reforma para abrigar uma série de iniciativas culturais. Feito todo de tijolinhos, com aquelas arcadas castelhanas típicas, o Matadero lembra um pouco o Sesc Pompéia, só que é umas quatro vezes maior, sem exagero.

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Outra curiosidade é que, pelo tamanho do lugar, as reformas parecem que ainda vão longe. Mas isso não impede que o edifício funcione como sede de exposições e eventos. Semana passada, como comentado aqui, o Matadero foi o palco principal do Dia da Música em Madri.

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São galpões e mais galpões. Alguns já contam com toda a infra-estrutura montada, como se pode ver logo no saguão de entrada:

DSC_0020Outros são bem rústicos, com as vigas praticamente à mostra, e ainda assim servem de espaço para exposições, como esta ligada ao Photo España deste ano:

DSC_0071Uma das instalações mais bacanas é a Estación Futuro. São vários jogos eletrônicos criados sob uma perspectiva artística. É mais ou menos como jogar fliperama numa galeria:

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Dentro há ainda espaço para leitura, desenho e workshops com artistas plásticos durante toda a semana.

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E pensar que em São Paulo uma área dessas (são quase 150 mil m2!!!!) primeiro cairia na mão de uma máfia imobiliária, depois o prefeito, com parte no negócio, mudaria a lei de zoneamento para, por fim, criar um novo e reluzente complexo de escritórios. Tudo sem infra-estrutura de ruas e transporte público, aumentando ainda mais o caos e enterrando qualquer esperança de mais lazer e verde na cidade. Ô tristeza……

Os novos protagonistas

Reclamo muito do auto-centrismo espanhol, mas devo reconhecer que eles têm algumas e iniciativas bem interessantes de análise do cenário internacional, sobretudo no que se refere à América Latina. Esta semana a Casa de América, um dos espaços mais legais de eventos e seminários de Madri, em parceria com sua irmã mais nova, a Casa Asia, realizou um encontro de notáveis para voltar ao tema da crise e os países emergentes. O tema foi “Novo cenário mundial e novos protagonistas: Brasil, China, Índia e México”.

Enrique Iglesias: além da economia, Brics começam a ganhar espaço na política internacional

Enrique Iglesias: além da economia, Brics começam a ganhar espaço na política internacional

Antes que alguém pergunte o porquê do México e não a Rússia, bem, a idéia era reunir os esforços dos dois fóruns citados acima. Além disso, o México é o “filho preferido da Espanha” como todo mundo fala aqui e, com justiça, gera muita atenção no campo econômico, já que se trata do maior país emergente de origem hispânica.

O evento, como sempre de graça e aberto ao público sem distinção, teve muito blá, blá diplomático, mas também um contéudo interessante. Entre as figuras de destaque estava o ex-presidente do BID, o uruguaio Enrique Iglesias, que fez mais um retrospecto da crise e comentou as atuais relações entre uma Rússia e Brasil fornecedores de matérias-primas, frente a uma China manufatureira. “Não podemos cair no erro das relações entre América Latina e Inglaterra do século XIX, em que um lado fornecia alimentos e o outro bens industrializados. As relações econômicas entre os países emergentes precisam ser muito mais integradas e complementárias”, diz Iglesias. Ele ressaltou ainda que embora os Brics sigam como um conceito basicamente econômico, a movimentação dos emergentes aponta para mudanças importantes também no campo político.

Professor Arahuetes: entusiasmo total com o Brasil

Professor Arahuetes: entusiasmo total com o Brasil

Curiosamente não havia nenhum brasileiro no encontro, embora não faltasse na platéia. Fiquei com a sensação que rolou algum problema de agenda com quem quer que tenha sido convidado.  No fim foi melhor: trouxeram para falar o professor Alfredo Arahuetes da Universidade de Comillas, que já havia vivido cinco anos no Brasil, com passagem pela Unicamp. Um verdadeiro entusiasta do país. Elogiou muito os intelectuais brasileiros e sua suposta preocupação em buscar permanentemente novos modelos de inserção da nossa economia no cenário mundial. “Todo mundo lembra do Brasil como produtor de alimentos e energia, mas pouca gente sabe que o país tem uma indústria super diversificada e de alto nível. O terceiro pólo aeroespacial do mundo hoje está em São Paulo”. Não fosse brasileiro, ficaria até entusiasmado com tanto otimismo 🙂 De todo modo, é mais uma prova de como a imagem do Brasil no exterior difere totalmente do que lemos na imprensa todos os dias.

Na sequência do debate falou um sociólogo da associação chinesa de estudos latino-americanos. Embora tenha tentado dar um ar de independência, era aquele discurso de sempre do governo chinês, nada fiável: uma visão de mundo multipolar, defesa dos valores democráticos e relação amigável com seus vizinhos de fronteira.  Aquela coisa de lobo na pele cordeiro, tudo isso num inglês péssimo. Medo.

O intelectual indicano Gurcharan Das

O intelectual indicano Gurcharan Das

Aí entrou o personagem mais interessante da noite, o intelecutal e jornalista indiano Gurcharan Das, autor do livro India Unbound, que traz uma visão de desenvolvimento de linha liberal, pregando reformas no pesado e irracional estado indiano. Com aquele sorriso característico dos indianos, traçou um cenário super interessante do país, o rápido ritmo de crescimento nas últimas décadas e especialmente de 2004 para cá. Comentou um pouco sobre as últimas eleições, com fé de que o país está no caminho certo de desenvolvimento, em bases democráticas. “Vivemos a contradição de termos algumas das empresas mais dinâmicas e avançadas tecnologicamente no mundo, ao lado de um estado arcaico. Na India dizemos que o país cresce à noite, quando os burocratas estão dormindo”.

Para encerrar, uma rápida apresentação de Luis Rubio, presidente do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do México. Muito crítico ao modelo mexicano, destacou a visão limitada de crescimento imposta pela formação do Nafta que, em vez de catapultar a economia local, apenas tornou-a mais dependente dos Estados Unidos. “Somos uma espécie de pequena Ásia, produzimos bens manufaturados baratos, só que de logística mais complicada, desfrutando da nossa posição geográfica privilegiada”. Rubio destacou ainda que embora tenha avançado politicamente com o pluripartidarismo, o país carece de instrumentos democráticos que viabilizem a gestão do estado no dia a dia. “O estado continua engessado e sem capacidade de ação. Esse é maior dilema do México hoje”.

A cada dia, a cada evento que participo aqui, fico com sensação mais forte de que os países ricos, sobretudo na Europa, se vestem com uma capa falsa de defesa dos direitos humanos, proteção ao meio-ambiente e apoio financeiro aos famintos do mundo. Mas na prática se isolam cada vez mais em uma bolha de protecionismo e reserva de mercado, enquanto aproveitam a miséria alheia para vender armas, explorar a mão-de-obra baratíssima do Terceiro Mundo e exportar tecnologias de segunda que as novas regras ambientais e trabalhistas não os permite mais usar em casa.

Fica claro também que países como o Brasil têm espaço para crescer não só economicamente, mas também do ponto de vista político e institucional.  O desafio é seguir diversificando a pauta comercial em mais parceiros e setores, enquanto tenta criar una nova agenda política. Alcançar um discurso comum com China, Russia, Índia, México, Malásia…..e pressionar o mundo rico a trocar a filantropia cínica por um comércio mais justo, isso sim vai ser dureza….. Parece, contudo, que o Brasil é um dos países que reúne as condições necessárias para liderar esse processo.

Dia da Música

Javier Corcobado toca no bairro de Lavapiés

Javier Corcobado toca no bairro de Lavapiés (foto do blog Brasileños)

Domingão foi o Dia Europeu da Música, que celebra a chegada do verão. Madri estava com atrações ótimas, especialmente de rock, do meio-dia às duas da madrugada. O espaço principal foi o Matadero, um lugar sensacional que fica a cinco minutos de caminhada de casa. Era o antigo matadouro municipal, transformado em um centro cultural. Lembra muito o Sesc Pompéia, só que é umas quatro vezes maior, com galpões imensos ligados a um pátio central de proporções igualmente exageradas.

Vocalista da banda Klaus&Kinski

Vocalista do Klaus&Kinski

Bancado pela Heineken, o evento tinha na programação mais de uma dúzia de bandas em três palcos. Começamos ouvindo um pouco de Klaus&Kinski, de Múrcia. Faz o número banda moderninha com uma cantora cool de voz frágil e indefesa. Vale por curiosidade conferir a faixa Rocanrolear.

Nudozurdo

Nudozurdo

Na sequência encaramos o Nudozurdo, uma banda de Madri que já tinha escutado, faz um rock meio ochentero, mas com uma pegada psicodélica.  O vocal canta e faz uns trejeitos na linha do Ian Curtis, do Joy Division. Tem umas guitarras bem legais, vale dar uma checada em El hijo de Dios.

Deixamos o Matadero e fomos até o bairro de Lavapiés, colado no centro, onde a Fnac também tinha montado o seu palco. A figura mais esperada, pelo menos por mim, era o Javier Corcobado, que já cansei de elogiar em outro post. Tocou praticamente todas as músicas do disco novo, A Nadie. Sensacional.

Em seguida vimos uma banda de Bilbao, We Are Standards, que fechou a noite. Fazem parte da invasão mais ou menos recente de bandas espanholas que só cantam em inglês. Nesse caso, iam bem na linha do rock dançante inglês com referências de música eletrônica. Um pouco Happy Monday´s, Franz Ferdinand, U2 e até Duran Duran. A tentativa de hit Don´t let the children play é bem legal.

Pena que por conflito de horários não pudemos ver a atração principal no Matadero, a Russian Red, uma mina de Madrid que está ganhando projeção no mercado internacional, também em inglês. Um lance mais soft, como se pode ver em Cigarettes. Resumindo, acho que não perdi nada. Nessa mesma linha, a Anni B. Sweet, de quem já havia comentado, me parece mais intessante.

De todo modo voltamos ao Matadero e deu ainda pra conferir o final de mais um show, do Sunday Drivers, de Toledo. Vão mais na linha do rock caipira americano. Paranoid é legalzinha.

Resumindo, um dia inteiro de calor sufocante, cervezas frías e música de graça. Balada perfeita pra rocanroleros de carteirinha 🙂

Um estranho em Goa

goaAproveitando a visita do comparsa Adriano Henriques a Santo Amaro um tempo atrás, despachei com ele literalmente 20 kg de livros que andei comprando por aqui. Resultado: fiquei sem nada na mão para folhear. Fui obrigado a descumprir a promessa de só ler em espanhol esse ano e apelei para um dos livros que trouxe de Portugal. Peguei o mais fino da estante, na expectativa de logo virar a chave outra vez.

Um Estranho em Goa é uma preciosidade. José Eduardo Agualusa é um escritor angolano que, segundo a contra-capa, circula entre Luanda, Rio e Lisboa. Nesse livro de viagem que ultrapassa o absurdo, ele usa personagens que vão desde um ex-guerrilheiro na África auto-exilado à beira de um rio no Mato Grosso, até o diabo em pessoa. Faz um jogo ótimo com o jornalismo ao  desvendar os improváveis habitantes da fauna luso-indiana que vai rumando rapidamente para a extinção no antigo protetorado português na Ásia. Tudo isso misturado com os freaks americanos e europeus que frequentam as praias paradisíacas de Goa, além de referências a sambinhas do cartola, iorubás, brâmanes, Timor Leste e Camões.  A trama ainda cima por cresce num ritmo alucinante e alguma dose de sacanagem.  A edição à venda no Brasil tá um pouco mais cara do que eu paguei numa versão de bolso no Porto, mas vale bem a pena.