Arquivo da categoria: Marrakech

Guia de Marrocos no UOL Viagem

Monte Atlas no álbum de fotos do UOL Viagem

Monte Atlas no álbum de fotos do UOL Viagem

Publicado o primeiro trabalho em dobradinha com a Iris no UOL Viagem, o Guia de Marrakech. Sem falsa modéstia, legal mesmo ficou o álbum de fotos.

Em breve tem mais, aguardem 🙂

Matéria sobre Marrocos na Folha Online

Mais uma humilde contribuição à imprensa nacional, desta vez sobre o Marrocos, na Folha Online. Uma matéria sobre Essaouira e outra de Marrakech.

Tradição e modernidade

Mais um glorioso título chavão!

Embora o grande barato de Marrakech seja a Medina, o mercado, as mesquitas e palácios, a cidade também possui uma vasta área de edificações modernas. Muitas ruas e avenidas têm aquele aspecto impessoal de qualquer metrópole, mas algumas construções, como a estação de trem, conseguem combinar a arquitetura contemporânea e tradicional com muito bom gosto.

A novissima estação de trem de Marrakech

A novíssima estação de trem de Marrakech

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Praça na área moderna da cidade

Praça na área moderna da cidade

Aproveito a viagem para ler o livro O Oriente Médio: do advento do cristianismo aos dias de hoje, um tratado sobre a região escrito pelo acadêmico inglês Bernard Lewis.  Ajuda bastante a compreender a intrincada geografia e história do islã.

O Marrocos é, sem dúvida, uma ótima porta de entrada para se conhecer o mundo muçulmano, já que a realidade política e econômica do país está muito mais próxima hoje da Europa do que da África e o Oriente Médio. Para um turista ocidental, o primeiro contato é bem mais palatável e dá vontade de se aventurar mais em outras viagens.

O islã, um advento do século VII, é entendido por seus seguidores como a versão mais acaba e definitiva das práticas monoteístas. Diferentemente do judaísmo e do cristianismo, Maomé não é uma divindade, mas um profeta que, ainda em vida, construiu um império e estabeleceu as bases de devoção do deus único por meio do Corão. A regilião já tem, em tese, sua forma final: os muçulmanos não esperam um redentor enviado à terra diretamente pelo criador. Não houve ninguém antes e não haverá ninguém mais depois do Profeta.

Em boa parte de sua história, o islamismo foi entendido como uma religião mais tolerante em relação a outras crenças, como o cristianismo, o que ajuda explicar sua rápida expansão territorial. Mesmo em seu período mais intenso de consquistas – os quatro ou cinco primeiros séculos da era islâmica – os novos senhores mexerem pouco nos costumes e práticas de organização social dos povos ocupados, em comparação com outros impérios.

Nesse contexto, o Marrocos – um país periférico no espectro muçulmano – teve seu apogeu na época da invasão moura da Península Ibérica (711-1221). Em várias ocasiões os exércitos do império mameluco do norte da África, sediado no Egito, vieram em socorro dos califados da Andaluzia em dificuldade com os cristãos. Foram os marroquinos também que contiveram o avanço dos portugueses, e depois dos espanhóis, no período das navegações (séculos XV e XVI), quando os reinos cristãos da península ameaçaram seriamente o controle muçulmano no Magreb.

Para os ocidentais, o islã é hoje algo atrasado e repressor, especialmente em relação às mulheres. Vendo mais de perto, percebe-se características interessantes.  A religião está muito presente em todos os momentos da vida do povo. Mais do que um conceito espiritual ou filosófico, é uma prática diária e disciplinada que, de certa maneira, ajuda a preservar o sentimento de unidade muçulmana. Concretamente, isso faz com que o brutal assédio da sociedade moderna não acabe de vez com as tradições e os constumes ancestrais.

Algumas cenas são curiosas. É razoavalmente comum ver jovens com aquela imensa barba afegã, estilo Bin Laden. Eles usam o chapéu típico, saia e camisa tradicional, mas exibem um nike lustroso nos pés. As mulheres quase sempre estão de véu, mas as mais abastadas sempre se exibem com aquelas bolsas douradas cafonas da Louis Vitton ou óculos com um logo espalhafatoso da Dior. É a pressão do ocidente.

De todo modo, existe um mérito em conseguir preservar parte da sua própria identidade, num momento em que boa parte da humanidade parecer viver, agir e pensar de maneira cada vez mais igual. Uma idolatria massiva dos iPods, iPhones, Diesel, Dior, Louis Vitton, Calvin Klein, etc, etc, etc.  Se o Profeta vivesse nos dias de hoje, talvez chamasse isso de paganismo consumista. Ou consumismo pagão, sei lá :-))

Jardin Majorelle

Retorno para um último dia em Marrakech. Depois de percorrer bem a Medina e o Guéliz, bairro novo e ocidentalizado, já não havia muito o que visitar na cidade. Faltou um passeio no Jardin Majorelle, pequeno parque do início do século XX, desenhado pelo pintor francês Jacques Majorelle, que se estabeleceu em Marrakech por volta da década de 20. Nos últimos anos o jardim foi comprado por Yves Saint Laurent, morto em junho deste ano. Lá foi erguido inclusive um memorial onde as purpurinas  do estilista estão depositadas.

O lugar é bem charmoso e costuma atrair turistas estrangeiros ligeiramente mais abastados, já que a entrada é um pouco salgado em se tratando de um jardim. Mas vale a visita, sem dúvida.

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Memorial onde estão depositadas as purpurinas de Yves Saint Laurent

Memorial onde estão depositadas as purpurinas de Yves Saint Laurent

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Riads

Em todo o Marrocos, uma boa opção de estadia são os Riads, casas tradicionais transformadas em pousadas, boa parte de proprietários estrangeiros, normalmente franceses. As tarifas não variam muito em relação aos hotéis de baixo custo da Europa, mas o ambiente costuma ser bem aconhegante. As casas marroquinas invariavalmente têm só uma minúscula porta principal, mas por dentro se perdem num labirinto de escadas e corredores, estendendo-se por três andares ou mais. O atendimento dos Riads costumam ser acima da média, mas podem rolar alguns inconvenientes, como internet anêmica, encanamento velho e água não muito quente. Os banheiros nem sempre têm porta, só uma cortininha. Mas são uma experiência bem bacana de hospedagem.

Depois de passar os primeiros dias no moquifento Hotel Islane, em Marrakech, fomos parar num Riad ótimo em Essaouira, de duas irmãs francesas simpaticíssimas, o Villa Garance. Nota dez para a decoração cheia de peças de antiquário e o atendimento.

Riad Villa Garance, em Essaouira

Riad Villa Garance, em Essaouira

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Terraço (quase) com vista para o mar

Terraço (quase) com vista para o mar

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De volta a Marrakech, pegamos um promogação no Booking para o Riad Dar Saba, com uma das melhores avaliações de toda a cidade. O hotel fica super escondido na parte menos turística do mercado central, o que torna sua localição boa, mas difícil de achar. Excelente dica de hospedagem em Marrakech.

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Essaouira, a Parati africana

Ainda mais pra lá de Marrakech, seguimos viagem por uns 150 km rumo ao litoral. Percorrer o Marrocos por terra não é complicado: os ônibus são novos, baratos, e as estradas, bem modernas. Chegamos em Essaouira para uma temporada de três dias. Mais ao sul, o balneário está fora do roteiro turístico de massas do país, o que a torna uma ótima opção para uma temporada sossegada, longe do assédio dos vendedores e do trânsito caótico das grandes cidades.

Vista da praça principal, próxima ao cais do porto

Vista da praça principal, próxima ao cais do porto

Curiosamente, a primeira impressão que se tem de Essaouria é a de uma versão de Parati do outro lado do atlântico. A praça central tem edificações que lembram um pouco o nosso estilo colonial, normalmente brancas com as molduras das janelas em azul. As cidades marroquinas normalmente são definidas pelas cores de suas construções, que mudam de região para região, em função do tipo de solo que serve de base para a produção de tijolos e características culturais. Marrakech é toda em tom marrom-avermelhado, e quanto Fes, outro grande pólo turístico, é azul.  Casablanca, bem casablanca…..

A semelhança com a arquitetura colonial não é totalmente uma mera coincidência. A principal atração de Essaouira é um forte português, denominado Castelo Real de Mogador, em alusão ao nome original da cidade. Construído em 1506, no auge da expansão lusa pelo litoral africano, foi tomado pelos mouro menos de 20 anos depois, dando início a um novo ciclo de ouro do domínio árabe em todo o Magreb. Aqui e ali sempre se encontra mais alguma referência portuguesa, normalmente construções de caráter militar. Do alto do forte garante se tem uma visão privilegiada de toda a cidade e o litoral

Forte de Mogador, construção portuguesa do século XVI

Forte de Mogador, construção portuguesa do século XVI

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A vista é simplesmente um luxo

A vista é simplesmente um luxo

Famosa pelo surfe e o windsurfe, a Essaouria atrai uma comunidade internacional de bichos-grilos e oxigenados, o que cria uma atmosfera curiosa: no lugar da música árabe, o reggae toma conta das ruas, enquanto o rock and roll, dos cafés e restaurantes. Ainda assim, as coisas continuam parecendo bem muçulmanas

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça....

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça....

Os camelos também aproveitam para tomar um bronze

Os camelos também aproveitam para tomar um bronze

Na areira, toda a ginga e malemolência do futebol maroquino

Na areia, toda a ginga e malemolência do futebol maroquino

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No outro extremo da praia, mais um fortificação portuguesa, em ruinas

No outro extremo da praia, mais um fortificação portuguesa, em ruínas

Porta de acesso à Medina, o centro comercial da cidade

Porta de acesso à Medina, o centro comercial da cidade

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Essaouria também é famosa pelas clinicas de odontologia

Essaouria também é famosa pelas clínicas de odontologia

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Cais do porto

Cais do porto

A pesca é a principal atividade econômica, ao lado do turismo

A pesca é a principal atividade econômica, ao lado do turismo

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Pra lá de Marrakech

Finalmente posso estufar o peito e soltar esse chavão maravilhoso!

Cadeia de montanhas do Atlas, nos arredores de Marrakech

Cadeia de montanhas do Atlas, nos arredores de Marrakech

Um programa divertido para se fazer em visita a Marrakech é conhecer o Vale do Ourika, que acompanha a Cordilheira do Atlas, uma belíssima cadeia de montanhas com picos nevados que se estende por 2400km, passando pelo Marrocos, Argélia e Tunísia. É a formação geológica que se separa os verdes campos da costa atlântica e mediterrânea do Saara. Encravada nas portas do deserto, Marrakech foi erguida na segunda metade do século XI na planície circunvizinha ao Atlas, que invade a paisagem a partir de qualquer ponto mais alto da cidade.

O passeio começa lás pelas 9h30 e vai até umas 17h, percorrendo não mais que 50km em uma van, ao preço é de 25 euros por pessoa. O destino final é chegar a uma comunidade berbere – grupo étnico caractéristico da região do Magreb, cujas origens remontam às tribos nômades do deserto  – localizada ao pé da montanha, por onde desce uma imensa cachoeira. Pra quem já foi às highlands mineiras, a queda d’água não tem nada de especial.  Destaque mesmo são os montes nevados.

No meio do caminho, nosso guia Rachid (o nome era mais ou menos esse), um tiozinho muito simpático, nos levou para tomar chá em sua casa, numa pequena comunidade rural berbere. Fomos servidos por sua filha Fatma, nome bastante comum no mundo árabe, por se tratar da filha do Profeta e figura importante na história do islã. Ela nos preparou um delicioso chá de menta, a bebida nacional maroquina, acompanhado de pão feito na hora, azeitonas colhidas no pé, azeite igualmente rústico e saboroso, além de mel. A casa é simples e limpíssima, ainda que o  hall de entrada seja habitado por uma vaquinha leiteira. É esquisito, mas a manteiga também estava bem gostosa :-))

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O guia Rachid e sua filha Fatma, cozinheira de mão cheia

O guia Rachid e sua filha Fatma, cozinheira de mão cheia

Forno sob a terra, onde o pão é feito na hora

Forno sob a terra, onde o pão é feito na hora

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A pequena mimosa mora bem no hall de entrada

A pequena mimosa mora bem no hall de entrada

tudo muito simples e impecavelmente limpo

Decoração da sala: tudo muito simples e impecavelmente limpo
Essa é a cozinha

Essa é a cozinha

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Depois dessa parada para uma boquinha, seguimos viagem.

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As plantações de oliveiras se espalham por todo o Vale do Ourika

As plantações de oliveiras se espalham por todo o Vale do Ourika

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Para a alegria dos turistas, camelos à vontade para montar e fotografar

Para a alegria dos turistas, camelos à vontade para montar e fotografar

Mais uma parada no caminho, desta vez para visitar uma fabriqueta artesanal de cosméticos feitos a base de óleo de argan, extraído de um tipo específico de oliva muito comum na região. Embora os produtos mais sofitisticados venham de fora, a mulherada ainda prepara o sabonete e alguns cremes da maneira tradicional.

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Imagem completa da linha de produção

Vista completa da linha de produção

Primeiro elas batem para tirar a casca e esfarelar a semente

Primeiro elas batem para tirar a casca e esfarelar a semente

E depois preparam com as mãos a massa gordurosa

E em seguida extraem o óleo que serve de base para o sabonete

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Depois de mais alguns minutos de carro e uma caminhada íngreme, chegamos ao pé da famosa cachoeira, que não impressiona muito para quem está acostumado aos padrões brasileiros.

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Mas a vista das montanhas, sem dúvida alguma, compensa o passeio

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