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A loja da esquina

Tjinder Singh, líder do Cornershop: rock indie-indiano, literalmente

Tjinder Singh, líder do Cornershop: rock indie-indiano, literalmente

E por falar em domingo em Camden Town, assistimos lá a um showzásso de uma das minhas bandas preferidas, o Cornershop. Quando estive em Londres pela primeira vez, em 1998, comprei alguns CDs desses caras e não parei mais de ouvir. O grande barato deles é misturar o indie pop britânico com uma pegada de música indiana. Liderados pelo vocal e letrista Tjinder Singh, o Cornershop faz uma alusão ao estereótipo clássico dos indianos na Inglaterra, que são os habituais donos e atendentes das lojinhas de esquina, sobretudo em Londres. Suas letras às vezes passam pelo discurso social, combinando maravilhosamente uma guitarrada Gibson com cítaras. Genial:

O grande barato do Cornershop é o efeito psicodélico da cítara em cima de um pop simples e direto

O grande barato do Cornershop é o efeito psicodélico da cítara em cima de um pop simples e sem frescura

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A banda começou a tocar em 1991 e acabou de desmachando no  início dos anos 2000. Essa foi a primeira apresentação dos caras em sete anos, para o lançamento de um novo álbum, “Judy sucks a lemon for breakfast”. Showzásso, aliás, é maneira de dizer: tocaram num lugar pequeno e tradicional, o Jazz Café, para no máximo 300 pessoas e a preços bem honestos. O bacana é que a base do repertório foi do melhor álbum deles, “When I was born for the 7th time”, de 97. Uma das faixas é uma versão preciosa de Norwegian Wood, dos Beatles, em indiano. Pra quem não conhece, recomendo muito o download.

Na minúscula platéia havia ainda algumas figurinhas carimbadas do freak folk, que anda bem na moda ultimamente. Sem se desgrudar um minuto estavam Devendra Banhart (tenho quase certeza absoluta), sujeito que entre outras excentricidades é fã de Caetano Veloso, e Josh Weller, um garoto bem bacana que tive oportunidade de ouvir num showzinho em Madri.

Na página oficial do Cornershop, dá para conferir algumas novidades, entre elas o clipe da nova “música de trabalho”, “Who fingered rock and roll”:

Sou suspeito pra falar, mas o pop indie-indiano do Cornershop vale uma boa conferida com calma. São a cara de Londres!

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Rockeiros desde criancinha

Diz o chavão que o Brasil é insuperável no futebol porque a molecada praticamente nasce com a bola no pé. Se essa máxima valer para o Rock´n´Roll, tá aí a razão pela qual ninguém fabrica mais bandas por metro quadrado que a Inglaterra.

O primeiro programa que fizemos logo na chegada a Londres foi ir a um festivalzinho chamado South Park Gardens Music Festival. Rolou em South East, Wimbledon, um subúrbio confortável de classe média a menos de meia hora de trem do centro de Londres. O interessante da proposta é que todos os grupos vinham da região e eram formados por integrantes abaixo dos 22 anos. Sábado de sol – coisa que verificamos ser uma raridade por aqui – e o clima era de adolescentes na grama, casais jovens com filhos pequenos e caras vendendo sanduíches de linguiça “orgânica”.  Tudo muito bucólico e família:

Molecada aproveitando o sol no embalo das bandinhas do bairro em Wimbledon

Molecada aproveitando o sol no embalo das bandinhas do bairro em Wimbledon

DSC_0435A coisa era bem caseira, começou com uma insólita apresentação de músicos infantis, a maioria cantoras mirins, mas a uma certa altura entra um meninote de 12 anos esmirilhando um blues-rock. Não me surpreenderia se visse esse garoto daqui a uns anos bancando de guitar heroe numa banda de tocar em estádio 🙂

Na sequência entraram várias bandinhas locais. Na faixa dos 16 anos, o Paint of State me surpreendeu (confiram a faixa I know that I can keep them). Sonzinho inocente, cru ainda, mas com uma pegada indie bem legal:

Roquinho indie do Paint of State

Roquinho indie do Paint of State

DSC_0456Apesar da estrutura minúscula, o festival tinha dois palcos, um dedicado a música mais acústica. Com visual de menino-lenhador, a cantora adolescente Astrid Gustafsson Wood mandou legal com um repertório de canções folk, na linha letras longas e profundas. Chemical Relief é bem bonita.

O festival seguiu com muita porcaria e acabamos desistindo de ficar por ali mais tempo. Mas na reta final tinha ainda pelo menos outras duas bandinhas interessantes, The Jacobites (What´s the point), que promete com uma levada oitenteira; e The Wintermen, com produção bem acima da média, em busca da balada perfeita na linha Coldplay, essa praga com tecladinho pegajoso que contaminou toda a cena pop atual. A canção Nothings built to last mostra que os garotos bem que podem emplacar.

No geral, o festivalzinho foi fraco, mas valeu pra sentir como os caras por aqui levam a sério esse tal de Rock´n´Roll e estimulam a molecada desde cedo.

Corcobado

Capa de "A Nadie", novo disco de Javier Corcobado

Capa de "A Nadie", novo disco de Javier Corcobado

Como dá para imaginar, a indústria do pop/rock em espanhol é gigantesca. Além de toda a produção latino-americana, o mercado da Espanha por si só gera uma quantidade impressionante de bandas, tanto na linha de super-sucessos quanto no variado cardápio da cena Indie, como já comentado antes (aqui e aqui).

Talvez seja excesso de exigência, mas 90% de tudo o que já escutei me parece bem fraco. Os caras são chegados a refrões gosmentos e arranjos pra lá de chavão. Dada a qualidade discutível no geral, os argentinos, rockenroleros por natureza, nadam de braçada.

Mas em meio a esse deserto, finalmente encontrei alguma coisa espetacular. É um cara chamado Javier Corcobado,  nascido em Frankfurt e criado em Madri. Tem uma longa trajetória na cena local a escreve letras sensacionais. Uma espécie de Dylan hispânico com frases mordazes ao estilo Wander Wildner.  Na página oficial do cara no MySpace dá pra sentir um pouco o esquema.

Corcobado escreve pérolas como ¿Porqué estoy tan triste teniendolo todo? Vivo sin mañana sangrando palabras…..Impossível ñ lembrar de Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro, do Wander.

E os refrões se transformam em hits instantâneos, caso de Soy un niño:

Quiero irme de aquí/con tu amor en mi barco/y borrar todos mis miedos/con el tremor de tus labios

quiero amarte en la locura/de los palacios del mar…del mar……


Resumindo, o som do cara é de puta madre, como eles dizem por aqui. Seu último disco é uma preciosidade. Recomendo muito baixá-lo na íntegra, está disponível no eMule como A Nadie 2009.



Indyspensable

cartel_indyspensable09Ciudad de Los Ángeles, extremo sul de Madri. Com a chegada do calor, os eventos públicos vão pipocando e a bandinhas arrumam mais espaço pra tocar. A prefeitura de Villaverde (ali já é outro município) realiza o Indyspensable, evento na faixa de rock indie que nesta edição homenageou os 20 anos de dois selos aparentemente de referencia na cena local, o Elefant e o Subterfuge.

Já que Legazpi é uma espécie de Santo Amaro, de casa até lá é como pegar um metrô imaginário no Largo 13, descer quatro estações depois e chegar num Jardim São Luís de prédios confortáveis de classe média e ruas arborizadas. Sexta e sábado com cinco shows por noite e cerveja barata.

cola jet setComo já havia comentado, Madri não é exatamente a meca do indie, mas se esforça. O mote todo era um pop rock na linha fofa do Belle & Sebastian. Começou com a banda sesentera de Barcelona, Cola Jet Set, tão teenager que um dos caras era um tiozão gorducho com toda a pinta de pai de algum dos adolescentes. Pior é que o coroa tocava uma guitarra de 12 cordas com um timbre de baladinha californiana muito bom. Tudo muito família e bem tocado. Em espanhol, então, fica especial. A faixa Prometiste Volver, com uma pegada psicodélica, vale uma conferida.

fitness foreverNa sequência entrou Fitness Forever. Como se poderia esperar de uma banda italiana, povo mauricinho e pretensioso. Os caras com aquele cabelo milimetricamente cortado e sorrisão picareta a la Berlusconi. Verdade que conseguiam captar um pouco do espírito do pop americanizado da Itália pós-guerra, com aquele inevitável jeitão de festival de San Remo. Pra quem gosta de Pizzicato Five, a música Mondo Fitness lembra um pouco.

anni b sweetO sol senegalês finalmente baxou às dez da noite e entrou um dos destaques do festivalzinho, a Anni B. Sweet, que apesar do nome é de Málaga e com um forte sotaque sul-americano. Faz o estilo cantora do Arkansas com inglês impecável, violão em punho, três acordes e a verdade. É a atual queridinha da imprensa musical alternativa. Tem uma voz preciosa e é acompanhada por um conjunto super bem produzido. Folk, docinha, romântica, Second Hand explica bem o esquema.

speedmarket avenueNovamente, um destaque internacional. Dessa vez os suecos da Speedmarket Avenue. A vocalista é uma dessas nórdicas de cabelo escuro de 1,90 m e 50 quilos, que macaqueava no estilo da Björk. Banda bem competente, agradou bastante o público com o som mais britpop da noite. A faixa Way Better Now tem um quê de Arcade Fire, bem bacana.

cooperPra encerrar, o conjunto mais conhecido do público na programação, o Cooper, de León. Rapazes bonitinhos, letras de amor, pop melódico bem ao gosto da rapaziada daqui. La edad de la inocencia fala por si. Brega, resumindo.

Semana que vem rola a Festa da Música, com um esquema na linha Virada Cultural. Em breve mais novas do mundo hispano-indie 🙂